Sem saída.
Cheguei ao fundo do poço – era assim que ia começar o texto. Mas a expressão é imprecisa, pelo simples fato de que poço não tem fundo. Posso fazê-lo com dez metros, posso fazê-lo com cem, posso fazê-lo até a China. Por que sempre a China, não sei. E se o buraco sair no Japão? Ou no Azerbaijão? Qualquer que seja o lugar, não vai ser fácil explicar ao meu antípoda como é que, cavando ao contrário, surgi no seu quintal ou no meio da quadra de um esporte qualquer que se pratique por lá. Mas afastei-me doze mil, setecentos e cinquenta e seis quilômetros do que iria escrever. Qual seja, a miríade de problemas que tenho enfrentado. Dizem os gurus que a primeira providência, numa situação dessas, é separar fato e ficção – o que é problema real do que seja criação ou exagero de uma mente em sobressalto. Falar é fácil, eu poderia retrucar. Mas seria apenas para ouvir a réplica do guru de que só diz “falar é fácil” os que não tentam fazer. Quer dizer, não há saída. A conclusão inevitável é a de que, se estou no fundo do poço, quem é que mandou me meter lá? Para esses espertalhões, sabe o que eu digo? Às favas com a expressão! Melhor evitar metáforas. O que quero significar é que estou enfrentando dificuldades – ou essa também é uma metáfora? Claro, como poderia alguém bater-se contra conceitos intangíveis? Mas se abandono as relações de semelhança, como me expresso? Como comunico (com perdão do cacófato) o que me vai pela alma, essa substância incorpórea de tal-qualmente duvidosa existência? Talvez listar as dificuldades concretas que enfrento? Mas por que concretas, se cada palavra é apenas uma denotação ou conotação da coisa à qual se refere? Por favor, curem-me de minha ignorância. Talvez no fundo no fundo (olhem aí o poço outra vez) eu não esteja vivendo dificuldade alguma. E toda a presente ladainha seja apenas uma maneira de descalçar essa bota ou, por outra, colocar no papel as suadas palavras nossas de cada dia. Espero que sim, embora me pareça ter escolhido um ponto de partida inadequado: qual foi a última vez que alguém viu um poço de verdade, se é que houve alguma? Ou visitou essa nação caucasiana sem saída para o mar, que os mapas – alegorias eles também – chamam de Azerbaijão? Por Zeus: vejam a pepita que deixei passar! Tinha nas mãos um país cercado de terra por todos os lados – isso sim representação fiel do enclausuramento em que me encontro – e, em vez de explorar a analogia, fui lá cavar um buraco interminável. Agora é tarde. Mesmo que, com essa deixa, eu discorresse em superar fronteiras e avançar em direção ao mar aberto, nada garante que não viesse a morrer na praia – metáfora à qual, a esta altura da história, só me resta apor um ponto final.


Mais uma genial, Ciro. Congrats.
Ei "tio" Ciro. Amo como vc escreve. 💞Saudades