Fronteiras.
Em um dos coworkings que frequento – cuja mensalidade garante um assento em mesas compartilhadas – há um sujeito que, apenas chegado ao local, ocupa dois ou três lugares, esparramando casaco, echarpe, mochila, laptop, lancheira, garrafa d’água e o que mais tiver trazido da, com certeza, pocilga onde vive. Por que conto isso? Porque é o protótipo de pessoas que, na vida, julgam-se credoras de mais espaço do que lhes cabe. Você deve conhecer alguém assim. Aliás, deve conhecer mais de um. Cidadão ou cidadã sem senso de limites: o desrespeito espacial mascarando uma profunda insegurança. Pior. Além de achar que o entorno lhes pertence, os mais arrogantes agem como se pudessem dispor também das pessoas que os circundam. De onde vem o desvio, não saberia dizer. Menos ainda com relação a alguém com quem nunca troquei uma palavra. Já os folgados com os quais tive o desprazer de partilhar um trecho de estrada, desses me afastei ao ser tratado como pagem ou propriedade. Publicitário de profissão, estou longe de ser um analista – mas não acredito que o fato me impeça de dar um pitaco. Mesmo porque a razão do distúrbio é clara como o dia. Um indivíduo espaçoso – seja por ação ou pensamento – é alguém que se sabe menor de como gostaria de ser visto. Daí a necessidade de invadir áreas e mentes ao seu redor. Comigo, entretanto, a prática não funciona. Já conheço o perfil de priscas eras: dos conterrâneos que se espalhavam nos antigos bondes de minha cidade natal aos remoters que se alargam hoje em bancadas coletivas. Reconheço o tipo de chofre e, pragmático que sou, busco a paz em outra freguesia. Enquanto me afasto, mais do que depressa o invasor toma posse do lugar que lhe toca, do que apenas deixei e do que mais houver na vizinhança. Vítima de um acentuado nanismo ético, o espécime reproduz em sua pequenez o que costumavam fazer os governantes de ontem e (infelizmente) o que fazem os de hoje também: compensar com território o que lhes carece de autoestima.

Adorei o nanismo ético e carente de autoestima. Hehehehehe. Abração Pelicano, saudades do cê.
Gostei desta definição, Ciro: “espaçoso”. De folgados a gente entende um pouco mais. Há muitas frases sobre eles, inclusive: “Mais folgado que pente de careca” e variações. O espaçoso, me parece, é um folgado com desejos de expansão geográfica (quiçá, geopolítica!). Gostei também do nanismo, que tem acometido nossos governantes e muita gente por aqui, por aí… Sobrevivamos em boas condições para contarmos, mais tarde, boas histórias!