A Mostarda.
Se o fez, ainda mais naquele momento, foi porque não tinha nada a perder – ou porque o “não” ele já o tivesse. Salete o olhou de cima abaixo, um movimento dos olhos que a pequena estatura do rapaz facilitava, e depois de longos segundos devolveu-lhe o “não” que ele já sabia possuir. Agora podemos continuar? perguntou ela. Só temos meia hora antes que chegue alguém. Dito isso, completaram o trabalho em silêncio: aliviaram o cofre da casa das muitas joias que ela tinha certeza de encontrar lá. E ganharam a rua pela porta de trás, um depois do outro. Salete, com o grosso do butim num saco de veludo que ela acomodou na bolsa a tiracolo; ele, com os objetos maiores na mochila. Famintos (é a adrenalina, falou o jovem cuja sugestão de se esconderem num motel havia sido recusada) pegaram a estrada principal até o primeiro restaurante – deserto àquela hora da noite. Hambúrger para os dois, nisso concordaram prontamente, embora ela odiasse ketchup. Tomates podres cozidos sabe-se lá como. Preferia mostarda. E ao borrar de amarelo o marrom da carne, falou que um dia ainda teria uma casa em Dijon. Vou com você, o rapaz grunhiu – a frase mal superando a barreira de uma gigantesca mordida. Você não sabe que é feio falar com a boca cheia? Mastigando, ele espertamente não respondeu. E explodiram os dois numa gargalhada que espalhou comida pela mesa toda. Vou à toalete, recompôs-se ela já apanhando a bolsa. Mas foi o tempo de levantar para ouvir do rapaz: a bolsa fica. Só se eu levar a chave do carro, devolveu Salete já de pé. Ele aquiesce e lhe estende o chaveiro em forma de revólver. Pode me passar o batom também? Está no zíper de fora. Com os dois objetos no bolso, desaparece no corredor. Quando volta, inverte-se o toma lá dá cá: ele apanha a chave, enquanto ela segura a bolsa para onde devolve o batom. Finalmente prontos, deixam o local e, logo à frente, ela lhe indica uma estrada secundária. O ruído da sirene começou poucos quilômetros depois – e, apesar do palavrão com que o rapaz reagiu, ela pediu calma. Vamos seguir como se nada fosse, mesmo porque quem garante que seja com a gente? Não demorou muito para descobrirem. Depois de forçar o carro a parar no acostamento, o policial arranca o rapaz porta afora e o empurra algemado para o banco traseiro da viatura. Já a moça, aos prantos, recebe o tratamento de vítima: cobertor nas costas, perguntas sobre como havia sido tratada pelo sequestrador, e elogios à sua esperteza: não fosse o aviso escrito a batom no espelho do banheiro, era muito difícil que ela se salvasse. Pouco depois, na delegacia, a insistência do rapaz de que fossem cúmplices só arrancou risos dos policiais – mais ainda porque a bolsa que ele dizia estar cheia de joias, tinha apenas os objetos de praxe. Já a mochila, escondia penduricalhos de ouro e pedraria de alto valor. E com façanhas semelhantes no currículo, não demorou muito para que fosse preso por um furto do qual a polícia só conseguiu recuperar algumas poucas peças. A parte do leão jamais foi encontrada. E quando o caso perdeu o interesse da mídia, Salete volta ao restaurante de estrada, pede um hamburger, borrifa-o de amarelo e, entre uma mordida e outra, recupera o saco de veludo que alojara no estofamento do banco. Hoje, a ex-diarista vive em Meaux, cidadezinha a noroeste de Paris que, na opinião de renomados chefs de cozinha, produz a melhor mostarda do mundo.


Muito bom!
Também prefiro Dijon, a cidade e mostarda, rsrsrrs...