A Figueira.
Peguei da pena, expressão de cujo obsoletismo já na época fazíamos troça, porque vi hoje uma figueira em tudo parecida com a que fronteava a catedral. E também porque faz tempo que estou para lhe escrever. Na minha idade – a menos que um dos cinco sentidos dê uma ajuda – a memória desobriga-se de lembrar seu hospedeiro de tudo o que esqueceu. Mais ainda escrever para alguém com quem não falo... há quanto tempo? Quarenta anos? A última vez foi na igreja. Depois do pasmo absoluto com sua escolha do momento, corri de lá para a estação onde me esperava um trem já no segundo apito. Enxuguei os olhos e embarquei com mais sonhos na mala do que os “se cuide, meu filho” que tinha ouvido em casa. E sem carregar dúvidas do que me reservava o futuro. Até aprender – não demorou muito – que o futuro não aceita reservas. Você é admitido, se fizer coincidir as variáveis de tempo e espaço. Caso contrário, permanece na fila. E com o tempo, confunde – ou finge confundir – uma coisa com a outra. Fiz fila em tantas ocasiões e lugares que, para lhe contar em detalhes, esta carta ficaria espessa demais para um só envelope. O que posso dizer é que nada saiu como eu esperava. “Nada” talvez seja excessivo, mas foi muito pouco do que planejei. A vida é assim mesmo, me falou alguém um dia desses: um jogo de bila, onde você ou acerta a bolinha adversária ou perde a partida. E sem direito a desculpas: a bola passou rente, o sol atrapalhou, estava com a mão fria... Isso não quer dizer, é claro, que eu não tenha nada pra mostrar. Sabe o livro que eu vivia dizendo já estar na página trinta? Pois é, retomei-o. Muito a fazer ainda, mas minha esposa tem gostado. Só mostro pra ela. Os filhos, nenhum se interessa. São ajuizados, mas vivem em outro mundo. Ou então sou eu que fui lançado ao espaço. Sinto o ar rarefeito e as coisas com que sonhei cada vez mais distantes. Como formiguinhas. Pensamentos ruins me circundam a cabeça dia e noite – e é só vacilar para um deles subtrair o pouco de confiança que me resta. Família de longevos, sei que ainda tenho um bom tempo pela frente; a questão é o que fazer com ele. Pensei em estudar outra língua, mas “que sei eu a mais sobre um cavalo, desde que aprendi que em latim ele se chama equus?”. Sábio Stendhal. Poupou-me um curso que, fosse ele de italiano, inglês ou sânscrito, iria me roubar no mínimo duas horas por semana. E de mais a mais, aposentadoria é aposentadoria. Não é mais o tempo de botar pra dentro, mas sim desembuchar a que viemos. Como o livro que continuo escrevendo. Empaquei na catedral, de onde saí sem lhe dizer adeus. Não ia caminhar até o transepto com todo mundo me olhando. E se escrevo hoje é porque vi na internet – como lhe explicar a internet? – que a praça em frente agora tem seu nome. Melhor do que um viaduto, pensei e me arrependi da chacota. Vi também que a figueira centenária, que tantas vezes abraçamos, se recusa a envelhecer. Já eu, sigo desfolhando nesse outono agora permanente. Mais do que isso, meu eterno amigo, não tenho pra contar. Dizer que ainda volto? Posso até fazê-lo, mas só se for para descobrirmos – agora que a praça é sua – onde é que as raízes dessa árvore imorredoura vão buscar seu elixir.


Hoje com quase 80, também fico pensando onde buscar meu elixir.
Ótima crônica!