A 5a. de Beethoven.
Sabe aquela fase em que nada sai de nossa pena que pareça justificar a ocupação dos seiscentos e vinte e três centímetros quadrados de uma página de papel ou pixél (a tônica é minha)? Somos os primeiros a reconhecê-la – só não sabemos qual contramedida adotar. Esperar a estiagem ceder; tentar irrigar-nos com uma taça vinho ou uma dose de vodka? A ouvir o bom senso, a resposta são três sonoros nãos. Temos mais é que ir em frente: dedilhar continuadamente o teclado, nem que a única coisa consistente que a gente consiga produzir sejam calos na ponta dos dedos.
Escrever, escrever sempre – despreocupados com a direção que possa tomar o texto: a de uma avenida de possibilidades ou de um beco sem saída. E por que sem saída?! O que seria um beco com saída, senão uma rua? Tergiverso (como diria um poeta distraído): ideias infelizmente não são como o azoto que encontramos no ar.
Tam, tam, tam, taaam! Do nada ou, quem sabe, do tudo vêm-me à mente as quatro notas iniciais da 5a. Sinfonia de Beethoven – que, por coincidência, fazem as vezes de letra “V” no Código Morse: curto-curto-curto-longo. O “V” da vitória, como sinalizava Churchill na Segunda Guerra Mundial (usando o indicador e, se vocês ainda não notaram, o middle finger). E como alardeava a BBC, na mesma época, em suas transmissões para a Europa ocupada. A música de um compositor alemão usada contra seu país, agora inimigo. E por que faço emergir esse episódio das profundezas da história? Quem é que o catapultou para a primeira fila de minha atenção?
Foi a inspiração! ouço um anjinho bom do meu lado direito. Inspiração uma ova! ouço rebater um anjinho mau do meu lado esquerdo. Polêmica que só me confunde, além de prolongar a imaculidade do branco na folha. Código Morse?! O que isso tem a ver com bloqueio criativo? A insinuação é a de que devemos pedir auxílio? Talvez seja isso, mas quem poderia nos ajudar senão nós mesmos? Ligar para um amigo? E se ele não atender porque está escrevendo? Só vai piorar o que já está ruim.
Se for para cair, prefiro cair de pé. Aliás, o que diabos queremos dizer quando dizemos “Fulano caiu de pé!”? Se a queda for da escada com a qual o descuidado trocava uma lâmpada, a aterrissagem vertical seguramente poderá poupá-lo de um arranhão ou outro. Mas se for do décimo andar de um prédio, qual é a diferença entre cair de pé, deitado ou de cabeça? O infeliz vai se arrebentar nas três alternativas. Digo isso porque deparei ontem com a expressão, ao ler a notícia de um executivo que despencou do mais alto cargo de uma multinacional. Caiu de pé, porém, dizia a nota. O que infelizmente não vi foi foto, mas posso imaginar um tronco disforme com os dois pés na altura do púbis e as coxas saindo pelos ombros. Horrível. Mas caiu de pé, como diz o vulgo – seja lá o que isso queira dizer.
Fato é que hoje não há Beethoven, Churchill, Código Morse ou executivo suicida capazes de me ajudar a put pen to paper. Mais sábio recolher acampamento e adiar a tarefa para amanhã. E o provérbio “Não deixe para amanhã...” que não se atreva a entrar na história. Deixo a tarefa para quando quiser – mais ainda porque há um bom livro à minha espera. Não por acaso, de um autor que, segundo ele mesmo, passou ene vezes pelo mesmo problema e ene vezes o superou.
Estou tranquilo, portanto (embora não fosse de mau alvitre saber como se escreve Socorro em Código Morse).

